domingo, 31 de maio de 2009

Orfandade

Órfã de você eu fiquei.
Foi só eu te descobrir e te gostar para você partir.
Como tantos fazem. Foi embora de vez e já não existe volta.
Só me resta olhar para trás. Se vou sentir saudade?
Se vou continuar carregando novas dores?
Se vou lembrar dos velhos amores?
Se as alegrias esporádicas me encontrarão pelo caminho? Certamente que sim...
Mas de repente, não mais que de repente, me vi órfã de me encontrar por entre seus pensamentos confusos.
Aqueles que tanto me fascinaram um dia porque foram os únicos em que consegui me reconhecer. Você sempre falou e se expressou para mim.
Quanto egoísmo o meu. Quanta saudade. Quanto amor. Quanto tesão. Quanta decepção.
E no entanto, me sinto orfã de todos estes entusiasmos mutáveis e contraditórios, mas sempre sinceros que poucos - como você - conseguiram aflorar.
Órfã de me enxergar e de poder me buscar - por e através - de você.
Te buscaria sempre. De novo e de novo.
Não importa o tamanho da dor que a sua ausência me causa.
É pior que qualquer vício.
Orfã de suas estórias de amor eu estou.
Órfã de mim mesma.
Órfã da sua vida entrecruzando à minha.
Órfã de nossas almas que talvez nem fossem gêmeas, mas se entendiam.
Como poucas...
Maldita a hora em que fui me acostumar...

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Saudade de você amargando a vida...
Aquela que eu finjo ser doce.

Saudade de você adoçando a vida...
Aquela que é.

Saudade de não saber mais do que sentir saudade...
Saudade de sentir.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Cadê o erro?

São quase 2h. Ela entra em casa cambaleando e se esforçando para não fazer barulho. Mal deixa as chaves na bancada da cozinha e ele acende a luz. Olha pra ela com uma cara de reprovação. Antes que ele possa dizer alguma coisa, ela já se defende.
- O meu dia foi péssimo e eu te disse que ia a um happy hour. Precisava espairecer...
- Sei que o seu dia foi uma merda, mas podia ao menos atender o telefone...
- Desculpa, eu devo ter esquecido o celular no silencioso...
- Juro que a minha vontade é de brigar!
- Depois do dia infernal que eu tive...E eu é que ainda levo?

Ele esboça um sorriso que a irrita.
- Não é engraçado! Você devia passar a mão na minha cabeça, me dar um abraço e não brigar comigo! Diga que me entende...
- Ok, eu te entendo e não vou brigar. O quanto você gastou nessa brincadeira?
- Quase nada e eu nem bebi tanto...
- Sei! Eu devia é puxar tua orelha, mas prefiro o abraço e a mão na cabeça...
- Por que diabos você puxaria a minha orelha? Até agora eu não entendi onde errei!
- Tá bom, você não errou...

Estava indignada e quase não conseguia ficar em pé. Com o tom de voz cada vez mais alto exigia uma resposta.
- Ah, fala sério! Onde eu errei? Eu tô tão puta que não consigo perceber! Vai, me ajuda!
- Não vai ficar de cara comigo?
- Não...
- Bom, o seu chefe te frustrou. Você ficou de cara, se deprimiu com razão porque estava esperando a retribuição do seu trabalho. Daí o quê você fez? Ao invés de respirar fundo e procurar manter o controle você se auto flagelou. Foi tomar um porre pra esquecer! Mas não dá pra esquecer disso em um dia então o porre não serviu de nada. Te enganaram e logo depois você se enganou. Liberar endorfina é bom, mas de maneira saudável... Não dá pra usar o alcóol como muleta...

Nossa, que soco no estômago. Não, foi pior e muito mais doído que um soco no estômago. Sem perder a dignidade, retrucou.
- Você sabe que eu sou exagerada, mas eu só sai pra beber. Era o meu plano independente do que aconteceu. Acho que depois do mês de trabalho intenso que eu tive, em que eu me dediquei, me esforcei, me desgastei por miséria...eu merecia algum tipo de recompensa!
- Ainda bem que eu perguntei se você não ia ficar de cara...
- Eu não fiquei de cara! Só estou respondendo... Ou era só pra ouvir?
- Não, relaxa. Podia ter réplica sim...

Ela odiava não conseguir entender e decifrar aquilo que ele pensava. Ou nas coisas que ele queria dizer e não dizia. Pelo menos não com todas as letras. Estava alcoolizada demais pra isso.
- Quem ficou de cara foi você, pelo visto...
- Claro que eu fiquei de cara! Eu quero te ver bem, porra! Não quero que você se deixe vencer por esse filho da puta... Só isso!
- Eu também não, mas foi mais forte que eu! Levei uma puta rasteira, só isso. Não vou ficar no chão, remoendo o que aconteceu. Mas quero me levantar com elegância e estilo e não fazendo cena... Agora dá pra parar de brigar comigo?
- Eu não estou brigando...
- Então por que diabos você ainda não me deu o abraço e nem passou a mão na minha cabeça?
- Porque eu quero e vou fazer muito mais que isso...